Linda Perry: A lésbica rockstar que você não sabe que conhece

Esses dias esbarrei num post que reunia os 25 maiores one-hit wonders da música dos anos 90 em diante. Aqueles cantores e bandas que fizeram sucesso com uma única música e depois desapareceram. Ou quase. Uma das canções listadas é What’s Up, do grupo 4 Non Blondes. Você pode não reconhecer de nome, mas tenho certeza que conhece no mínimo o refrão dessa música. Confere aí o videoclipe:

 

A música parte de uma situação bem específica, mas a linguagem e a mensagem são universais. A letra começa com a vocalista dizendo que está estagnada em seus 25 anos, à procura de esperança, de um caminho. A partir daí, a letra se desenrola num desabafo de frustração, de desespero contido e um desejo de revolução, sentimentos próprios de quem se vê preso na própria idade sem ter alcançado o que queria, ou desacreditado de que algum dia conseguirá livrar-se dessas amarras (sejam elas pessoais, familiares ou sociais). Essa sensação de agonia é universal. É fácil se identificar. Não é à toa que a música fez sucesso. Quando ouço, lembro logo de 20 Anos Blues na voz de Elis Regina: “Ontem de manhã quando acordei, olhei a vida e me espantei. Eu tenho mais de 20 anos. E eu tenho mais de mil perguntas sem respostas. Estou ligada num futuro blue. Os meus pais nas minhas costas. As raízes na marquise…”.

Linda Perry

Mas continuando na linha do tempo desse post… Ouviu aí no YouTube e lembrou de What’s Up? Eu mesma, quando me deparei com o nome da banda na lista, não lembrei de cara. Só quando ouvi que a memória engrenou e, olhando pra cara da vocalista, eu dei um pequeno surto. Eu sabia que conhecia a cantora de algum lugar, mas não conseguia conectar minhas sinapses pra descobrir da onde. Daí me joguei na Wikipedia pra ver o nome da bendita e tudo fez sentido. É a Linda Perry! Como pude esquecer que ela foi dessa banda? What? Como assim vocês não sabem quem é Linda Perry? Ora, sabem sim! Mas vamos pelo começo.

A banda de rock 4 Non Blondes era de São Francisco, na Califórnia, e durou apenas 5 anos. A cantora e compositora, Linda Perry, deixou o grupo para seguir carreira solo e as outras integrantes se dispersaram em seus próprios caminhos. Wanda Day, a baterista, morreu em 1997 de overdose.

Depois de What’s Up, os sucessos de Linda Perry saíram da boca de outras cantoras. Linda escreveu e/ou produziu uma cacetada de músicas pr’uma cacetada de artistas. Entre as mais famosas estão Get The Party Started, gravada por Pink, What You Waiting For, gravada por Gwen Stefani, Superwoman, gravada por Alicia Keys e Beautiful, gravada por Christina Aguilera. Ela também trabalhou com Courtney Love, Kelly Osbourne, Skin, Lisa Marie Presley, Celine Dion, Enrique Iglesias e mais uma galera. Linda chegou a enfrentar alguns perrengues financeiros logo após o fim do 4 Non Blondes, mas depois que passou a escrever/produzir músicas para outros artistas, sua carreira deu uma decolada meteórica. Atualmente, Linda Perry é uma das produtoras mais procuradas do mundo.

Mas era aqui nesse detalhe que eu queria chegar, na música Beautiful.

Linda Perry é lésbica assumida desde o começo da carreira. Durante a turnê do 4 Non Blondes, seu violão tinha a palavra dyke estampada. A gíria americana corresponde ao nosso sapatão e similares. “Eu não tenho um gênero”, diz a cantora, “Eu não tenho nem mesmo um gênero na cabeça. Eu não sou homem. Eu não sou mulher. Eu não sou rock. Eu não sou folk. Eu não sei o que diabos eu sou, mas tudo que sei é que eu posso ser qualquer coisa”.

Beautiful é uma canção que Linda Perry guardava para si mesma e não queria mostrar a ninguém, por ser bastante pessoal. Ela pensava em incluir a canção em sua carreira solo de cantora, mas Christina Aguilera, após conhecer Beautiful, gostou tanto e insistiu tanto em gravá-la que Linda Perry cedeu. Mas a primeira pessoa a conhecer Beautiful foi Pink, que também se apaixonou pela letra e pediu para gravar. Mas Linda negou o pedido e só depois cedeu à insistência de Aguilera. Tenho que dizer que achei a escolha acertada. Por ser fã de Aguilera, posso até ser suspeita pra falar, mas só uma cantora que consegue fazer cover de Etta James com excelência conseguiria dar a Beautiful a voz que a canção merece. Rapidamente a música, lançada no final de 2002, virou um grande hit. E o videoclipe, com uma Aguilera de cabelo loiro/preto/liso/cacheado, virou grito de protesto das minorias e, especialmente, da comunida LGBT. Assistam:

A letra é simples e poderosa. Possui a mesma força da antiga What’s Up, a força de passar uma mensagem universal com clareza e simplicidade. Beautiful fala da dor de sofrer um preconceito. Qualquer tipo de preconceito ou discriminação. E a superação através do refrão que repete “I am beautiful no matter what they say, words can’t bring me down. I am beautiful in every single way. Yes, words can’t bring me down. So don’t you bring me down today.

O videoclipe, com direção de Jonas Akerlund, é uma sequência de cenas que exemplificam diversos tipos de preconceito, agressão e descontentamento com o próprio corpo por não se adequar ao status quo. Podemos ver um jovem de corpo magro dentro de um quarto abarrotado de fotos de bodybuilders absurdamente musculosos, tentando parecer forte; uma menina anoréxica que ainda se enxerga gorda na frente do espelho; uma jovem negra rasgando revistas de moda com modelos brancas e jogando as páginas no fogo; um jovem com visual meio gótico meio punk que senta num banco do ônibus e vê as pessoas se afastarem dele; um homem que se vê incompleto no espelho e sorri apenas depois que está vestido de mulher e maquiado; e, a cena que mais impactou na época do lançamento do vídeo, um casal gay trocando carinhos e beijos em público, enquanto as pessoas passam lançando olhares de nojo e acusação.

Tanto pela mensagem de empoderamento quanto pelo clipe com a importante cena do casal gay, a música virou um hino da comunidade LGBT. A organização britânica LGBT Stonewall nomeu Beautiful a música com a mensagem mais forte de empoderamento para gays, lésbicas e bissexuais. A canção foi regravada por vários artistas nos anos seguintes e até hoje surgem novos covers. Um dos mais recentes apareceu no episódio piloto do seriado musical Smash.

Beautiful é do álbum Stripped de Christina Aguilera, onde Linda também colaborou com as canções Cruz, Make Over e I’m OK. Depois desse sucesso Linda Perry viria a trabalhar com Aguilera no maravilhoso álbum Back to Basics. Dessa vez, Linda colaborou em todas as músicas. Em Back to Basics, somos transportados numa viagem temporal através das músicas dos anos 20 até os anos 40/50. A sonoridade é algo único, buscando a essência do jazz, do blues e do soul numa roupagem pop atual, mas sem descaracterizar ou distorcer os artistas homenageados. Vamos de Etta James, Coltrane, Billie Holiday, James Brown, Stevie Wonder, Marvin Gaye, Aretha Franklin, entre outros monstros da música. Bem, claro que se você for um purista, você não vai gostar. E confesso que a Aguilera exagera aqui e ali nos gritos, mas é o estilo meio histriônico dela que eu até curto. Enfim, vale a pena conferir o trabalho (incluindo os videoclipes e o show da turnê com uma ótima direção de arte), que, de maneira geral, agradou tanto a crítica quanto o público.

Nota: A voz que vocês ouvem no vídeo acima (e também no álbum Back to Basics) na introdução Enter the Circus, que precede a música Welcome, é de Linda Perry.

Mas você deve estar aí se perguntando por que eu escrevi no título que Linda Perry é uma rockstar se ela escreveu tanto pop. A própria Linda Perry disse numa entrevista que não faz ideia de onde vem esse pop todo. Ela simplesmente escreve e pronto. Linda Perry é mesmo do rock e está com banda nova. Deep Dark Robot foi fundada em 2010 e é composta apenas por Linda, responsável pelo vocal, guitarra, baixo e teclado, e Tony Tornay, que cuida da bateria e da percussão. Até agora a banda possui apenas um álbum, 8 Songs About a Girl. E é exatamente como diz o título, a história de uma paixão malsucedida de Linda Perry por uma mulher. Só pelos títulos das músicas, a gente já entende a novela:

1. I’m Coming For You!

2. No One Wakes Me Up Like You

3. Can’t Getcha Out Of My Mind

4. You Mean Nothing To Me

5. It Fucking Hurts

6. Won’t You Be My Girl?

7. Speck

8. Fuck You, Stupid Bitch

Que atire a primeira pochete a fancha que não possui um caso sequer que siga esse roteiro.

Linda Perry nunca fez muito segredo sobre seus relacionamentos, com, por exemplo, Cybill Sheper e, atualmente, Sarah Gilbert. (Aliás, Sarah Gilbert, pra quem não sabe, é a Leslie Winkle de The Big Bang Theory). Eu acho ótimo não haver segredos sobre relacionamentos quando falamos em celebridades LGBT. Se eu, que sou uma mera mortal desconhecida, sinto um peso enorme nos ombros de me expor por motivos de contribuir para a visibilidade dos LGBT, uma causa política básica em que acredito fortemente, imagina a responsabilidade de alguém mundialmente famoso. Claro que existem casos e casos, e é até compreensível quem prefere ficar no armário pra não sofrer com o assédio da mídia e consequências para a família, mas que me dá uma coceirinha de raiva pra tirar certas celebridades do armário, ah isso dá. (Estou olhando pra você, Jodie Foster).

Aqui uma seleção de vídeos da Linda Perry tocando e cantando ao vivo algumas das músicas de 8 Songs About a Girl. Esse tom raw de voz que ela usa em Can’t Getcha Out Of My Mind é o tom de voz que eu imagino pra minha personagem Morgana Memphis, na época em que ela tinha uma banda de rock. (Pra quem não conhece, a personagem é a protagonista do conto Morgana Memphis Contra a Irmandade Gravibranâmica, publicado no Volume Vermelho d’A Fantástica Literatura Queer).

Se você curtiu o som, procure no YouTube que tem mais coisa boa dessa mulher.

Rock on.

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