O namorado brasileiro do Lanterna Verde

Segunda passada saiu uma notícia que eu ri a beça: o próximo namorado do Lanterna Verde gay, Alan Scott, será brasileiro. A graça é que isso deveria ser uma punição.

Já pincelei aqui que a DC iria transformar um dos seus personagens icônicos em gay. Assim, não foi bem o que eu esperava, mas serviu, serve, e bastante. Reações contrárias, é claro, surgiram às toneladas. Até aí tudo bem. Surpreso mesmo fiquei foi quando o roteirista da HQ disse que as reações mais negativas vieram do público brasileiro. Ok, ok, era de se esperar. É só entrar no site do Omelete (que, para o bem e para o mal, é referência hoje em termos de cultura Nerd) e dar um bizu nos comentários sobre a “saída do armário” do Lanterna.

Primeiro, chama atenção a quantidade de comentários: 593 desde 1º de junho, para ser mais preciso. Só pra nos situarmos: nessa terça, quando eu estava escrevendo este post, o tópico sobre “grande revelação do passado” do Batman tem 98 comentários desde 14 de junho enquanto a notícia de que o Super Man não ficará com Lois Lane nos quadrinhos gerou 63 comentários desde 21 de maio. E o tópico do omelete que li segunda, falando sobre o roteirista do Lanterna Verde gay? 404 comentários entre segunda e terça. Conclusão oficial 1: aos leitores de quadrinhos importa, e muito, com quem os super-heróis vão para a cama. Conclusão oficial 2: a estratégia de polemização da DC está funcionando.

Depois vem o “nível” dos comentários. Termos como “viados”, “queima rosca”, “pau”, “lavagem cerebral”, “valores biologicamente normais”, “puta traição”, “homoelete”, “porcaria”, “homossexualização do mundo”, “forças espirituais demoníacas” (kkkkkkk) e, é claro, o temor de que a homossexualidade passe a ser obrigatória (cuma????). Claro, o James Robinson (@jamesdrobinson) dificilmente lê omelete.com.br para ter percebido por lá como os brasileiros detestaram a “boiolização” do super-herói. Entre outras, ele percebeu quando tuitou que seu fígado estava doendo e um brasileiro respondeu “seu fígado está lhe punindo pelo que você fez com o Lanterna Verde”.

A reação do James Robinson não poderia ser melhor (ou mais arriscada): ele prometeu que o próximo namorado do Lanterna Verde será um brasileiro. Essa foi a parte que eu ri, tanto por achar graça mesmo da reação dos homofóbicos quanto por felicidade mesmo. Ok, Ok, não é fantástico queer nacional, mas não deixa de ficar ali pertinho, não é? E esperar pelo namorado brasileiro do Lanterna Verde não deixa de alimentar a imaginação…

Sim, tenho que concordar com o ByM, do bearneard.com.br (vejam também o interessantíssimo podcast deles sobre o Alan Scott): melhor seria se o motivo para esse namorado brasileiro não fosse vingança do autor. Entendo, é claro, que provavelmente, para o roteirista, ser gay não seja afronta (ele confirmou, em entrevista, que o Lanterna Verde será o líder de sua equipe de super-heróis). Mas promoter que o próximo namorado será brasileiro remete ao raciocínio de que isso será uma afronta para os brasileiros.

Um namorado brasileiro VAI chamar atenção dos brasileiros, que provavelmente vão ler mais a história, nem que seja para criticar. E como esse namorado não vai aparecer tão cedo, pode ficar a expectativa de quando o fulano surge. Pode rolar até uma vigilância das páginas da revista, possivelmente permitindo que o público acompanhe melhor as aventuras do Lanterna Verde antes que o novo romance (e com ele as resistências) surja. No fim das contas, o efeito pode ser bacana, a médio longo prazo, se a história for bem trabalhada.

James Robinson parece ter começado com o pé direito. Logo em sua primeira aparição em Earth 2, Alan Scott é mostrado como um cara bem simpático. Sua relação com o namorado parece consistente, e pra saber mais que isso você vai ter que selecionar o texto entre os marcadores de spoiler ou clicar na imagem à que esquerda e ler os diálogos em inglês. [Início do spoiler] Rola até um pedido de casamento, que não é algo gratuito. Sim, o namorado morre logo, como fica quase óbvio no começo desse post, morte essa que seria um clichê homofóbico não fosse o anúncio do autor de que haverá um novo amor no futuro. De qualquer forma, é justamente o anel dessa cena que será usado para forjar o anel do Lanterna Verde. [Fim do spoiler]

Claro, o tiro (ou o tipo) pode sair pela culatra. Devido a um tuitasso dos brasileiros, o personagem poderá se chamar “Mauro Tavares” (nome de um dos principais opositores à homossexualidade dos super-heróis) ou até “Bolsonaro”. Espero, realmente, que isso não aconteça. Para os heteros, seria um eterno motivo de chacota, uma lembrança da punição aos brasileiros. Para os homos, pode ficar difícil engolir um super herói gay namorando um cara chamado Jair Bolsonaro. Para os donos originais dos nomes, oportunidade de processos, visibilidade, pose de mártir, etc, etc, etc.

O futuro namorado também pode ser uma grande mão na roda para… estereotipar ainda mais o Brasil no exterior. Se ele tiver nascido em Buenos Aires, cercado de índios, sem saneamento básico, vai ficar fácil os homofóbicos dizerem que o roteirista é um alienado, e que portanto todos os trabalhos LGBT também o são.

De minha parte fica o desejo de que esse futuro namorado tenha um nome normal (Felipe, Rodrigo, João, Paulo etc.) e que represente bem os brasileiros. “Santa ingenuidade, Batman?”. Talvez, mas só o tempo dirá. E o James Robinson, é claro.

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