O Fantástico Sangue Queer

Tá, o Capitão Jack Harckness continua como o mais bem sucedido personagem queer de ficção fantástica. Tá, ainda há de se falar de Xena, Willow, Ozymandias, Danny e Wallace Wells entre uma miríade de outros tantos. Mas esse seriado, no todo, é um dos meus preferidos, e estreou sua quinta temporada essa semana. Sim, boa parte dos leitores já o conhece, mas se você já ouviu falar e ainda não assistiu / leu, vão aí os motivos queer para você começar.

“True Blood” (em tradução livre, “Sangue de verdade”) é uma das vedetes da HBO. E como os outros produtos da emissora, é arrojado, para adultos, com doses generosas de violência, sexo e drama. Foi desenvolvido pelo assumido Alan Ball, mesmo criador de “A sete palmos”, com um protagonista gay. Ótimo personagem queer, mas a história não é tão fantástica assim.

“True Blood”, por sua vez, é fantástico e queer na raiz. Os livros que deram origem à série (pasmem, escritos por uma dona de casa de 60 anos)
já são recheados de criaturas sobrenaturais, de homossexuais e bissexuais. Na televisão, provavelmente por influência do roteirista / diretor / produtor Alan Ball, isso fica mais evidente, mas não só. Depois de Anne Rice, vampiros as criaturas mais bissexuais da ficção fantástica. Afinal, para eles, sangue é sangue, não importa se vem de homens, mulheres, homo, bi, hetero ou transsexuais.

Falando nisso: parece que finalmente a França vai receber sangue de homossexuais. Aqui no Brasil, gays não podem ajudar o próximo doando sangue, como se não tivessem a capacidade de fazer sexo com segurança. Vai entender…

Voltando à ficção fantástica: tanto nos livros quanto nos seriados, o que começou todo o conflito foi justamente o sangue.Não, não foi o sangue extraído de gente. Foi o sangue sintético, criado por japas para transfusões. Mas daí os vampiros decidiram que, já que agora poderiam satisfazer suas necessidades nutricionais a partir de produtos industriais (ou sangue engarrafado vendido como tru blood, sem “e” mesmo), poderiam vir a público e se assumirem como vampiros. Trocando em miúdos: os vampiros desse universo ficcional saíram do armário. Ou melhor, dos caixões. E não saíram só por sair não: eles estão lutando, politicamente, para conseguirem direitos civis.

Alguém aí achou parecido com X-men e com o movimento LGBT do mundo real? Pois é. Não é mera coincidência.

Não, a história não gira em torno de um vampiro gay em pacíficas passeatas para que os mortos-vivos possam votar, se casar, ter direito à propriedade e a proteção policial enquanto humanos protestam e afiam estacas. A protagonista é Sookie Stackhouse (interpretada pela oscarizada e bissexual Anna Paquin), uma moça que, numa conversa, passa a maior parte do tempo com cara de pastel por não conseguir diferenciar o que você está falando e o que você está pensando. Ou seja, uma telepata muito poderosa, que luta, no dia-a-dia, para não ouvir todos os pensamentos de todos ao redor. Ou quase todo mundo: logo ela descobre que não consegue ouvir os cérebros dos mortos-vivos. E para uma jovem a alguns anos dos 30 que não conseguiu perder a virgindade porque o candidato ou fica pensando se ela tem pelos pubianos loiros ou que ela não é tão gostosa quanto um ator famoso, encontrar um cérebro masculino heterossexual silencioso é um achado e tanto.

A trama, na TV, desenvolve melhor certos aspectos dos livros (que são sempre em 1ª pessoa, do ponto de vista da Sookie). A história retrata mulheres de regiões mais pobres dos EUA. Mulheres “arretadas”, talvez equivalentes às baianas brasileiras. Os personagens homo ou bi são bem mais numerosos, e mais relevantes. Eles são de todas as classes sociais (e espécies) e não são sempre bonzinhos, já passaram dessa fase. Há terríveis vilões gays em “True Blood”, e os mochinhos gays não são sempre politicamente corretos.

Vamos à contagem, por ordem crescente de importância dos personagens queer do seriado. Claro: separar heteros de queer é fácil. Separar homos e bis é mais complicado, classificar personagens por importância também, mas vamu lá.

CUIDADO! A lista contém pequenos spoilers (ou não pequenos assim).

Eu avisei! Vamos à lista, que cobre todos os episódios até agora, das cinco temporadas:

  1. Um dos candidatos a desvirginizador de Sookie: gay;
  2. Um senador humano;
  3. A humana Yvetta: bissexual;
  4. O vampiro Malcom: gay;
  5. O vampiro Eddie: gay;
  6. A humana Naomi: lésbica;
  7. O vampiro Godric: provavelmente gay;
  8. O reverendo Steve Newlin: gay;
  9. O vampiro Talbot: gay;
  10. Hadley, prima de Sookie: bissexual;
  11. A rainha vampira Sophie-Anne: lésbica;
  12. A vampira Nan Flanagan: lésbica;
  13. A vampira Pam: lésbica;
  14. O rei vampiro Russell Edgington: gay;
  15. O brujo Jesus: gay;
  16. O cozinheiro Lafayette: gay
  17. Tara, melhor amiga de Sookie: bissexual;
  18. O vampiro Eric: bissexual.

Ok, é oficial. “True Blood” é o seriado de ficção fantástica com mais personagens queer por metro quadrado.  Concentração maior só na Fantástica Literatura Queer. Aliás, tou curioso pra ver o que saiu no volume amarelo e, principalmente, o que vai sair no volume verde, que terá um conto meu.

Cadê meus exemplares?!?!?!?!

Voltando a “True Blood”: não adiantaria nada ter uma multidão de personagens queer se eles não tivessem riqueza, profundidade e, principalmente, carinho do público. Lafayette, por exemplo, não é mais importante, na trama, que Tara ou Eric, mas é imensamente querido pelo público e, de longe, o personagem de veia queer mais desenvolvida na trama. Explico: Lafayette é um negão (no bom sentido da palavra, sem racismo) musculoso e surpreendentemente afetado. Quase uma drag. Mas ao mesmo tempo não leva desaforo nenhum para casa. Uma de suas cenas mais marcantes é quando um grupo de fregueses manda devolver os hamburguers preparados por ele, sob o pretexto de que o hamburger contém AIDS. A resposta do cozinheiro, à mesa dos homofóbicos, vale muito a pena (em tradução livre):

“Lafayette: Com licença. Quem pediu um hamburger… com AIDS?

O cliente: Eu pedi um hamburger de luxo.

Lafayette: Neste restaurante, um hambúrguer de luxo vem com batatas fritas, alface, tomate, maionese e AIDS! Alguém tem algum problema com isso?

O cliente: Sim! Eu sou americano, eu tenho direito de escolher quem faz a minha comida.

Lafayette: Ah, querido, tarde demais para isso. As bichas vêm criando suas vacas, suas galinhas e até fabricado suas cervejas bem antes de eu colocar meu traseiro sexy nessa história. Tudo nessa mesa maldita tem AIDS!

O cliente: Ainda assim você não vai me fazer comer hamburger com AIDS.”

Só pra constar: Lafayette não se machuca na briga que se segue. Já os clientes…

Claro, os mocinhos em True Blood são bem menos homofóbicos. Jason, irmão da protagonista, pode ser visto, no final do vídeo acima, cumprimentando Lafayette pela atitude. Alcide, um lobisomem porradão,  ao ser expulso da casa de Sookie por Lafayette (e ouvir a falsa desculpa de que é por problemas amorosos do cozinheiro com o namorado), lamenta pelo namorado dele e tenta conversar civilizadamente. Aliás, Lafayette e seu namorado, Jesus, são um dos casais mais unidos de todo seriado, e têm um papel muito importante na 4ª temporada. E, pelo visto, apesar das dificuldades, ainda vão render muito pano pra manga na 5ª.

“True Blood” é exibido, no Brasil, nos domingos, às 22 horas, no canal pago HBO.

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