Pinkwashing e a questão LGBTQ em Israel e na Palestina

Nós somos um grupo diversificado de lésbicas, gays, bissexuais, ativistas queer e trans, acadêmicos, artistas e agitadores culturais dos Estados Unidos que participaram de um tour de solidariedade na Cisjordânia Palestina e Israel, de 7 a 13 de Janeiro, em 2012.

O que nós testemunhamos foi devastador e criou um senso de urgência para que fizéssemos nossa parte para acabar com essa ocupação e compartilhar nossa experiência na comunidade LGBTIQ. Nós vimos os muros – literais e metafóricos – com nossos próprios olhos, separando vilarejos, famílias e terras. A partir disso, nós adquirimos uma percepção mais profunda do quanto essa ocupação afeta cada aspecto do dia-a-dia palestino.

Nós também adquirimos novos entendimentos sobre como a sociedade civil israelense é profundamente afetada pelos efeitos desumanizadores da política de Estado de Israel sobre os palestinos em Israel e na Cisjordânia. Nós fomos movidos pela imensa luta sendo travada por alguns israelenses em resistência às políticas de Estado que desumanizam e negam os direitos humanos de palestinos.

Assim começa a Carta Aberta para as Comunidades LGBTIQ e Aliados sobre a Ocupação Israelense da Palestina (acesse aqui em inglês o texto na íntegra).

Por que a comunidade queer deveria se pronunciar sobre isso? Um trecho da Carta responde a essa questão de maneira simples e objetiva: “Assim como os ativistas palestinos que conhecemos, nós vemos o heterosexismo e o sexismo como projetos colonizadores e, portanto, percebemos ambos como regimes interrelacionados e interconectados que precisam acabar.” Mas o buraco é mais embaixo. A Carta não é apenas mais uma demonstração de apoio ao Ativismo Anti-Ocupação (já que a Ocupação, por si só, possui desenlaces reacionários que inevitavelmente desembocam no sexismo). A Carta é uma resposta à prática israelense de pinkwashing.

Mas, antes de avançar na questão, vamos esclarecer alguns pontos para que se dissipe qualquer resquício de xenofobia. Nem todo israelense é judeu. Nem todo palestino é muçulmano. Nem todo muçulmano é religioso fanático. Nem todo judeu odeia muçulmanos. Nem todo muçulmano odeia judeus. Nem todo israelense (judeu ou não) é a favor da ocupação. Nem todo árabe (palestino ou não) é terrorista. E, sim, você pode ser mulher, árabe de origem palestina, islamita e lésbica. Assim como pode ser homem, israelense de origem norte-africana, católico e bissexual. Entendido? Okay.

(Não vamos entrar aqui na discussão de até onde se modifica a religiosidade devido à orientação sexual. Até onde se escolhe acreditar apenas naquilo que interessa. Isso é assunto pra outra hora).

Bem, seguindo o texto, o que é pinkwashing? Mais uma vez extraio a resposta de um trecho da Carta:

Nós rejeitamos a prática de pinkwashing, feita pelo Estado de Israel, que é uma campanha publicitária cínica e muito bem patrocinada, que passa para o público internacional a visão de uma Israel supostamente gay-friendly, como uma forma de desviar a atenção dos devastadores abusos de direitos humanos sendo cometidos diariamente contra a população palestina. A chave para a campanha israelense de pinkwashing é o rótulo falso e manipulativo de que Israel é uma cultura gay-friendly, enquanto a cultura palestina é homofóbica. Para nós, comparações desse tipo são imprecisas – homofobia e transfobia podem ser encontradas nas sociedades palestina e israelense – e passam do ponto: a ocupação ilegal israelense da Palestina não pode ser justificada ou desculpada com base num tratamento supostamente tolerante feito sobre determinados setores da sociedade. Nós apoiamos organizações queer palestinas como Al Qaws e Palestinian Queers for Boycott, Divestment, and Sanctions (PQBDS), cujo trabalho continua a atingir todos os palestinos, queer ou não.

Talvez para os que não acompanham a cena gay internacional, esse papo soe meio alienígena. Pra contextualizar quem tá caindo de pára-quedas, basta dizer que a rica Tel Aviv, segunda maior cidade de Israel, foi eleita o Melhor Destino Gay em 2011, com 43% dos votos. Nova York ficou em segundo, com apenas 14%. E, vejam só, São Paulo aparece em quarto, com 6%. A pesquisa foi feita através do site GayCities, da American Airlines.

Ron Huldai, prefeito de Tel Aviv, durante a festa de comemoração da escolha de Tel Aviv como Melhor Destino Gay em 2011.

O que está acontecendo com o pinkwashing é algo chamado homonacionalismo: a avaliação de uma nação com base no tratamento que ela dá aos seus homossexuais. E, no contexto de pinkwashing israelense, apenas aos homossexuais homens. Não se fala em mulheres. Não se fala em lésbicas. Palestinos gays que vivem em Israel, então, são mais ignorados ainda. Ou pior, são retratados de maneira caricatural e ofensiva.

Lembro da atriz e comediante americana Wanda Sykes, negra e lésbica, falando sobre o período das eleições estadunidenses de 2008. Logo após o resultado da eleição, ela ficou sabendo que a Proposição 8 (que eliminou o casamento entre pessoas no mesmo sexo na Califórnia) tinha passado. “I was so hurt and so fuckin’ pissed”. Para ela aquela noite foi uma loucura. A reação (transcrição da fala no show I’ma be me) foi: “Primeiro presidente negro! Yay! Ah, não, a Prop. 8 passou! Que porra é essa? Agora eu sou uma cidadã de segunda-classe! Antes eu tava num determinado lugar, e agora eu to lá embaixo! Ou melhor, to mais embaixo ainda! Porque enquanto mulher negra eu podia fazer muita coisa, podia casar e fazer o que eu quisesse. Mas como mulher negra e lésbica, não, nada disso. Eu to abaixo. E, sabe, é mais difícil. É mais difícil ser lésbica do que ser negra”.

O pinkwashing vem com essa sensação desconfortável de festa e inferno. É uma faca de dois gumes. É maravilhoso que gays possam viver numa situação razoável em território israelense. É melhor ainda que seja permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Israel. Mas quando isso tudo é usado para mascarar a violência e o abuso brutais despejados nos territórios palestinos ocupados, a coisa toda começa a azedar e fica difícil de engolir. Não bastasse a difundida islamofobia e xenofobia do ocidente contra os países árabes, agora, além de fanáticos terroristas, palestinos também são tachados de homofóbicos assassinos.

Em Maio desse ano circulou a notícia de um homossexual palestino pedindo asilo a Israel por temer ser morto caso voltasse pra Cisjordânia. Não foi o primeiro e nem será o último. Muitos palestinos gays fogem para Israel e seu suposto paraíso gay-friendly. A repreensão que os palestinos LGBTQ sofrem da família e da sociedade lhes causa medo. Mas é o mesmo medo que sofre qualquer LGBTQ em qualquer lugar do mundo. Desafio alguém a me dizer UM lugar no mundo em que um LGBTQ possa se assumir para a família e para a sociedade sem nenhum receio de ser rejeitado, odiado, abandonado, expulso, espancado ou morto. A questão é que a homofobia existe em qualquer lugar. Em alguns mais, em outros menos. Em alguns é escancarada, em outros é maquiada. É relativamente fácil ser gay classe-média nas praias de Ipanema. Mas já parou pra pensar como é ser gay pobre numa favela carioca, no meio de uma população predominantemente evangélica? A constante no meio dessa situação toda é que, não importa o lugar, existem grupos de apoio, resistência e ativismo.

O já citado Al Qaws é um grupo de ativistas palestinos gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e queer. Seus integrantes incluem pessoas de todas as idades, religiões, classes sociais, nível educacional e diferentes regiões geográficas. A comunidade queer palestina ainda está em seus primeiros estágios e grupos como esse trabalham em conjunto com a sociedade palestina para desafiar e quebrar as estruturas sociais opressivas. O grupo está batalhando há 10 anos. A título de comparação, o Grupo Gay da Bahia, mais antiga organização brasileira pelos direitos dos homossexuais, foi fundado em 1980. São 32 anos de luta. E ainda assim temos gente sendo agredida nas ruas em plena luz do dia. Tel Aviv, o famoso destino gay israelense, possui a maior Parada Gay do Oriente Médio, que não agrada a todo mundo, já que diversos líderes religiosos querem acabar com a festa.

Um dos maiores perigos do pinkwashing é fazer com que os LGBTQ ocidentais se voltem contra os LGBTQ árabes. De fato, isso já acontece de maneira tímida. A imagem caricaturizada que temos do árabe (sempre generalizado e homogeneizado num esboço grosseiro) é a imagem comercializada e vendida para a população LGBTQ em material promocional de festas como a Arisa, que passou aqui pelo Brasil no fim do ano passado, no 19º Festival Mix Brasil, patrocinado pelo Consulado Geral de Israel em São Paulo.

Assista ao vídeo abaixo e tente não ter o estômago embrulhado pelo tanto de absurdos preconceituosos amontoados numa coisa só travestida de comédia:

Mas e as mulheres árabes homossexuais e bissexuais? O nicho do nicho do nicho. Se a imagem preconceituosa do homem árabe é a do terrorista fanático, a imagem preconceituosa da mulher árabe se divide em duas: 1. Ou é a mulher submissa e sem voz, de rosto encoberto por um niqab ou corpo envolvido pela burqa, ou 2. É a dançarina exótica, sexualizada e objetificada. A mulher árabe E lésbica ou bissexual parece que não existe em nenhuma esfera. A visibilidade surge apenas dentro da comunidade LGBTQ local e, às vezes, internacional. Provavelmente a árabe lésbica mais conhecida é Hanan Kattan, executiva e produtora cinematográfica. Hanan é jordaniana de origem palestina, casada com a escritora e diretora Shamim Sarif, que possui origens asiática e sul-africana. Em 2010, Hanan co-organizou em Jerusalém o TEDxHolyLand, uma conferência que tratou de questões feministas do ponto de vista de mulheres israelenses (judias ou árabes) e palestinas. Mas Hanan é mais conhecida pelo filme que criou com Shamim, I Can’t Think Straight, uma premiada comédia romântica que é parcialmente baseada na própria história de vida das duas. O filme mostra as dificuldades de se assumir gay (e viver abertamente uma relação lésbica) num contexto culturalmente e religiosamente opressivo. No caso, uma rica família jordaniana palestina e uma família indiana tradicional.

Cena de I Can’t Think Straight. Lisa Ray à esquerda e Sheetal Sheth à direita.

Notas:

1. Todas as traduções presentes nesse artigo são traduções livres minhas. (Ou seja, se você sabe inglês, leia no original que é mais vantagem).

2. Sobre representações caricatas e estereotipadas de homens e mulheres árabes, lembrei desse post aqui no Arabic Literature, um blog sobre literatura árabe (em inglês). O post é sobre literatura árabe traduzida e em determinada parte do texto, faz uma observação sobre as capas dessas obras traduzidas. Quase todas apresentam mulheres usando véus ou homens usando o keffiyeh (o pano enrolado na cabeça).

3. No site The Feminist Wire, tem um artigo excelente sobre pinkwashing e suas consequências: The Golden Handcuffs of Gay Rights: How Pinkwashing Distorts both LGBTIQ and Anti-Occupation Activism, de autoria de Jasbir Puar, professora universitária e pesquisadora de temas envolvendo gênero e sexualidade.

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