Extra! Acordo entre religiosos e LGBT!

Algumas notícias me chamaram bastante atenção durante a última semana. Duas, em particular, parecem ter saído assim… sincronizadas! Coincidência pouca é bobagem.

Pois bem, Haddad, ao ser requisitado, pelas lideranças LGBT, a assumir uma postura mais abertamente favorável aos direitos LGBT, foi bem esquivo. O que chamou atenção não foi ele dizer que não queria contrariar as alas conservadoras de suas alianças, isso era mais que esperado (embora uma esperança sempre fique, confesso, às vezes sou todo esperança ingênua). Chamou atenção ele dizer que os interesses LGBT e os dos religiosos não são conflitantes. Eu, em mais um momento de esperança ingênua (principalmente quando a palavra conciliação está no meio) fiquei remoendo isso um tempão.


Será que…?
Pois no mesmo dia, o líder da Frente Evangélica na Câmara dos Deputados anunciou que não era contra um homofobia ser discutida nas escolas. Que era contra o kit anti-homofobia anteriormente proposto porque o mesmo promovia o “homossexualismo”.

Maravilha, não? No fundo no fundo, estamos todos, religiosos e LGBT, querendo a mesma coisa, certo? Afinal, nós, homossexuais, não queremos que ninguém deixe de ser hétero para ser gay, principalmente as pobres criancinhas. OK, vários homossexuais têm um fetiche em “converter” heterossexuais em gays. Mas mesmo essa fantasia, que considero das mais reprováveis, não costuma ser dirigida a crianças. Assim, conheci centenas de homossexuais durante a vida, de ambos os sexos. E tanto quando é possível avaliar numa conversa, constatei essa fantasia apenas entre homens gays, e o alvo da tentativa de “conversão” sempre é um homem bem másculo: adulto, bem adulto, geralmente de alguma classe operária. Estatisticamente, homens homossexuais que querem sexo com menores de idade parecem ser bem mais raros que pedófilos heterossexuais.

Adendo sobre o fetiche de transformar adultos héteros em gays: meo filho, qualquer que seja tua orientação sexual, tu tem todo direito de cantar qualquer pessoa adulta uma vez só. Mas mantenha em uma vez por pessoa, belê? Duas é falta de noção, três é desrespeito, quatro é ser chato de galocha!

Está oficialmente lançada a campanha “deixe o vigia em paz”!  (E o pedreiro, e o garçom, e o…)

Voltando à vaca fria (gelaaaaada!) da concórdia entre religiosos e homossexuais… Nós, gays, não queremos converter crianças e adolescentes em gays porque, no fundo, nenhum de nós foi educado ou aliciado para ser gay. Desde o berço, todos nós achávamos pessoas do mesmo sexo bem mais interessantes que as do sexo oposto (minha primeira paixonite foi pelo Christopher Reeve, em Superman, quando eu tinha 4 anos de idade). E olha só que surpreendente: todos nós que hoje nos assumimos como gays fomos educados para não sermos gays. E quase todos nós tentamos, desde a mais tenra infância, com todas as forças, ser heterossexuais. E… surpresa: não conseguimos! Por isso é que não faz sentido, para nós, os gays, tentar educar crianças para se tornarem homossexuais. Se para nós a educação tivesse o poder de mudar a sexualidade de alguém, nenhum de nós seria gay.

Para os cristãos homofóbicos (há, é claro, as igrejas inclusivas), entretanto, é líquido e certo que temos uma agenda secreta para “emboiolar” toda a sociedade. Nada mais equivocado. A sociedade só entra na nossa equação na parte de respeitar nossas liberdades. E não são grandes coisas não. São as mesmas liberdades que os héteros têm: namorar em público, casar, adotar, não ser xingado, não ser espancado, etc. Teoricamente, direitos que todos deveriam ter, já que todos são iguais perante a lei.

De onde os religiosos tiram, então, essa idéia estapafúrdia de que há uma conspiração gay?

A manifestação de uma associação americana de mães dá a dica: as ações afirmativas de visibilidade gay. E é aí que começa a diferença entre as agendas religiosa e gay.

Para os religiosos, homofobia é apenas a agressão física contra homossexuais. De uma maneira geral, eles realmente são contrários a isso. Mas nós, gays, sabemos que a homofobia tem várias nuances: ela envolve violência física sim, mas também envolve violência psicológica (ouvir os amigos dizerem que veado é nojento, definitivamente, não faz bem pra cuca de nenhum homossexual). Ela não é só externa (dos héteros contra o homo), ela também é internalizada (do homo contra si próprio, leia-se, odiar-se não conseguir ser heterossexual).

Quando as lideranças LGBT tentam mostrar, nas escolas, que a homossexualidade é natural, não estão tentando transformar crianças hétero em homossexuais. Estão lutando pelo direito dos homossexuais namorarem em público sem serem vaiados ou surrados, direito que os heterossexuais sempre tiveram. Mas também é mais que isso. Estão lutando para que adolescentes homossexuais não se odeiem a ponto de decidirem deixar de existir. E assim: nesses casos não se tenta suicídio fazendo cena não… Suicídio por homofobia internalizada não é anunciado, dá pouca chance de ser impedido. É motivado por vergonha intensa, por se sentir um verme imundo que desapontou Deus, a família, os amigos e o mundo, o pior ser humano da face da terra (opa! Não é assim que pregadores nos xingam todos os dias?). É motivado pelo desejo puro e simples de parar de existir para deixar de odiar a si mesmo e ter um pouco de paz. É rápido, certeiro, silencioso e escondido. 

A solução dos religiosos? Mais tentativa de se tornar hétero (terapias das quais o principal defensor pediu desculpas). Você acha que alguém que está pensando em morrer porque já cansou de sentar ser hétero está realmente preparado para fazer terapia para “se curar” da homossexualidade? Pode até estar disposto, mas preparado… As chances de a pessoa se desesperar de vez são muito grandes.

Vamos propor, então, um pacto entre os religiosos e o movimento LGBT sobre o combate à homofobia entre crianças e adolescentes? É coisa simples. É principalmente questão de se preocupar de verdade com o bem estar das pessoas, independente de credo, idade, sexo ou orientação sexual.

Deveres dos homossexuais:

1)            Jamais tentar transformar crianças heterossexuais em homossexuais, bissexuais ou transgêneros. Os homossexuais acrescentarão em seus discursos para crianças e adolescentes, sem o menor peso na consciência, os dizeres: “Se você nunca sentiu e nunca sentir atração pelo mesmo sexo, seja feliz sendo heterossexual e não tente transar com pessoas do mesmo sexo”.

2)            Jamais exibir para crianças imagens homossexuais inapropriadas para suas idades. A medida do que é inapropriado será a mesma do que é inapropriado em se tratando de imagens heterossexuais.

3)            Citar que há religiões que condenam a homossexualidade, e que essas religiões acreditam que a homossexualidade pode ser curada. Claro, isso não impedirá os homossexuais de dizer que há igrejas que aceitam homossexuais do jeito que são e que, segundo o Conselho Federal de Psicologia, homossexualidade não é doença, é natural, e que tratamentos para transformar homossexuais em heterossexuais trazem mais malefícios que benefícios.

4)            Deixar sempre claro que pais e religiosos que acreditem que homossexualidade é pecado ainda merecem ser respeitados.

Pena para o não cumprimento dos deveres dos homossexuais: quebra do presente acordo, sem prejuízo das penalidades previstas em outras leis.

Repare que, exceto pela frase entre aspas no item 1, todos os deveres dos homossexuais já são cumpridos.

Deveres dos religiosos:

1)            Informar, a cada pregação contra homossexuais, que a pregação não dá direito a que homossexuais sejam maltratados física ou psicologicamente;

2)            Informar, a cada pregação contra homossexuais, que a visão apresentada é uma interpretação da bíblia inerente à igreja em questão. Que a maioria dos médicos, biólogos e psicólogos discordam dessa interpretação e que há, inclusive, igrejas que interpretam a bíblia de maneira diferente e por isso aceitam homossexuais;

3)            Informar, a cada pregação contra homossexuais, que por mais que a igreja em questão considere a homossexualidade um pecado, essa igreja não deseja que quem não consegue ser heterossexual seja infeliz, odeie a si mesmo ou cometa suicídio;

4)            Informar, a cada pregação contra homossexuais, que homossexuais têm os mesmos direitos que heterossexuais, inclusive o direito à crenças diferentes das da igreja em questão, de namorar em público sem serem incomodados e de casarem em igrejas de interpretação bíblica que permita esse tipo de casamento;

5)            Informar, a cada atendimento a adolescentes homossexuais e seus pais, que o Conselho Nacional de Psicologia proíbe psicólogos de tentarem converter homossexuais em heterossexuais por considerar esse um processo danoso, e que portanto o tratamento que a igreja oferece é apenas estudo bíblico, aconselhamento religioso e oração, e que este tratamento só deve ser oferecido se e enquanto o homossexual o aceitar e desejar, sem qualquer pressão por parte da igreja ou dos pais e sem qualquer recurso medicamentoso;

6)            Informar, para cada homossexual que desistir do tratamento não-psicológico da igreja, contatos de igrejas inclusivas, entidades LGBT e psicólogos credenciados no Conselho Nacional de Psicologia.

Pena para o não cumprimento dos deveres dos religiosos: responsabilidade moral em cada maltrato cometido contra homossexuais, em cada depressão de homossexuais devido à homofobia e em cada suicídio motivado por homofobia.

Eu acho que as lideranças LGBT cumpririam esse acordo fácil, fácil. Já os religiosos… sei não…

Ou talvez cumprissem… se, no fundo, amarem seus filhos e sua liberdade religiosa de verdade. É só responder, com amor cristão no coração, as duas perguntinhas abaixo:

1)            Se seu filho não conseguir ser heterossexual, é melhor que a) ele se mate ou b) que vá para uma igreja que aceite homossexuais?

2)            É melhor que a) haja a possibilidade de um grupo religioso (um umbandista, por exemplo) ditar as leis para todos os brasileiros independente de suas religiões, ou b) não haver possibilidade de religiões interferirem na política e todos terem liberdade de praticar suas religiões?

Tá, eu me apego a esperanças ingênuas… Mas acho que a maioria dos humanos é sensata o suficiente para responder “B” nas duas questões.

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