Os Fantásticos Quadrinhos Queer

Duas notícias recentes juntam auê, fantástico queer e quadrinhos. Cada uma é atrelada a uma das gigantes dos quadrinhos norte-americanos, Marvel e DC. A primeira anunciou que, em junho, um de seus personagens gays vai casar. E a segunda, talvez pra não ficar tããão atrás, anunciou que um dos seus personagens icônicos se revelará gay em junho.

Junho, aliás, é o mês do orgulho gay nos EUA. E não, não é porque é o mês do meu aniversário e também do meu maridão. É porque 28 de junho de 1969 foi um dos dias em que a comunidade gay norte-americana se sentiu mais desrespeitada, em Stonewall.

Antes de continuar, vai uma observação importante. Repararam que as duas notícias são sobre homens homossexuais? Pois é, não é à toa. Homossexualidade feminina existe sim nos quadrinhos, mas não gera tanto debate. Pressupõe-se que a maioria dos leitores de quadrinhos seja de homens, para os quais, supostamente, a homossexualidade feminina não é problemática: é fetichista. Para esse público, a polêmica (que vende) vem da homossexualidade masculina. Batwoman lésbica desce super tranqüilo. Batman gay?! Nem pensar!

Polêmica (que na verdade é um dos principais motores da indústria cultural) é o “X” da questão. Marvel e DC já tinham personagens gays, lésbicas, bi e transexuais. A DC já casou personagens gays (versões alternativas de Superman e Batman de uma série não muito conhecida, mas casou) e já tinha lançado, há alguns meses, um personagem assumido na equipe de super-heróis que provavelmente é a segunda mais importante da editora. A Marvel já teve um personagem icônico gay (com menos campanha de marketing, e sem casar, mas teve, a ponto de ser um dos meus personagens queer preferidos). A linha que DC diz que cruzará é colocar, como gay, um personagem de primeiro escalão (o que muita gente duvida, mas foi exatamente isso que os representantes da DC disseram). E a linha que a Marvel cruza é estampar, na capa da próxima edição dos X-men, o casamento de dois homens pouco depois de Obama ter declarado apoio ao casamento gay.

Qual a importância de ultrapassar essas linhas? Alguma, sem dúvida. Não vou dizer que toda, mas já é alguma coisa no combate à homofobia (e mais uma vez, não estou falando só da homofobia fisicamente violenta). Heróis são freqüentemente modelos para a juventude e, na minha visão, personificações do direito de ser extraordinário. E há uma tendência humana (que até já gerou uma antiga teoria da comunicação em massa) a distorcer e até não enxergar aquilo que não se gosta. Ter personagens gays de menor importância (ou em histórias menos lidas, ou de equipes secundárias, ou adolescentes ou sem vida afetiva evidente) facilita um bocado a vida do cidadão que prefere ignorar super-heróis gays. E junto com a existência desse super-herói (ou de aspectos de sua vida), o cidadão põe também uma pedra em tudo que aquele herói representa acerca dos homossexuais. Verdades inconvenientes para a heteronormatividade, verdades que as pessoas, quando questionadas, até admitem como óbvias. Mas são verdades que, no dia-a-dia, essas mesmas pessoas tratam como mentira a cada vez que sentem, pensam, decidem e se comportam como entes sociais.

A capa da Marvel exibindo um casamento gay vai deixar bem mais difícil, para o fã, ignorar o fato de que gays se apaixonam e amam de verdade (e não apenas fazerem safadeza, como muitos pensam). Era mais fácil ignorar quando houve um casamento gay em histórias que um pequeno nicho lia, ou quando o Estrela Polar era gay mas não tinha namorado ou quando ele tinha namorado mas não trocava carícias com ele na frente dos outros membros da equipe ou quando ele e o namorado não casavam na capa da p*@#*rra da revista. Com essa capa, não só o fã verá que gays amam a ponto de se casarem, mas que os heróis que ele admira estão sentados, com caras felizes, assistindo a cerimônia e apoiando a felicidade do casal de homens.

A DC colocar um herói icônico como homossexual também vai dificultar bastante o conforto heteronormativo do fã. Quando o herói gay que a DC mostra é o Rapaz Invisível fica fácil continuar pensando que gays são imaturos, fúteis, egoístas e sem importância. Não que o coitado do Rapaz Invisível seja tudo isso, mas as histórias nem deixam claro que ele é gay. Tudo que ele faça de bom tem um longo caminho a enfrentar na cabeça dos marmanjos antes que eles mudem qualquer opinião sobre gays em geral.

Claro, não adianta cruzar linhas e bagunçar tudo depois, como também não adianta anunciar que vai cruzar a linha e não cruzar ou cruzar no mal sentido. Os fãs têm levantado a hipótese de que o famoso personagem gay da DC pode ser um vilão. [modo ironia ligado] Já imaginou que maravilha para o combate à homofobia se fazem um Lex Luthor gay? E que tal um Coringa gay? Bacana, né? [/modo ironia desligado]

É esperar pra ver. Enquanto isso, caro leitor, não se esqueça daquela “listinha”, lá em cima, (e aqui, caso você fique com preguiça de subir a página) de personagens homo das histórias em quadrinhos. E nem só de quadrinhos mainstream norte-americanos vivem os fantásticos quadrinhos queer: os orientais mergulham bem mais fundo nesse mar. O bacaníssimo bearnerd.com.br , aliás, tem bastante material sobre quadrinhos queer americanos, japoneses e de outras nacionalidades. É mais voltado para ursos, eu sei, e nem todos os quadrinhos de que falam são de ficção fantástica. Mas que lá tem material e análises bem interessantes, isso tem. Inclusive sobre quadrinhos com lésbicas.

E pra quem arranha no inglês, vale a pena acompanhar o canal Gaycomicgeek , no youtube.

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