Homofobia: é guerra, é?

Ontem, 17 de maio, foi o Dia Mundial contra a Homofobia. E definitivamente parece que homossexualidade é a polêmica da vez no mundo.

A eleição presidencial norte-americana, a exemplo da brasileira, parece ter colocado a homossexualidade no centro das votações. De um lado, Obama apóia o casamento gay em sua candidatura. De outro, o pré-candidato republicano diz que casamento é entre homem e mulher e pede desculpas por bulling homofóbico.

O pastor Malafaia, que tinha dito em seu programa de TV que a igreja católica deveria “entrar de pau” nos homossexuais e “baixar o porrete em cima deles”, é inocentado das acusações de incitação à violência. o_O Depois o pastor escreve à Carta Capital exigindo retratações e a resposta é quente.

Uma associação internacional LGBT lança relatório sobre homofobia institucionalizada. A ONU condena países que têm leis anti-LGBT. Brasil divulga estatísticas sobre denúncias de homofobia. França polemiza com animação homoafetiva. Irã enforca mais quatro gays. Filha de presidente cubano diz que o pai é a favor do casamento gay. Homossexuais gregos são ameaçados em Atenas. A senadora Marta Suplicy volta atrás e retira projeto anti-homofobia costurado com lideranças cristãs e volta a defender projeto anti-homofobia antigo.

É fácil pensar: “pronto, agora vai virar guerra”.  Pois quase vira mesmo.

Não, não estou viajando! Quarta, dia 16, saiu matéria sobre pastor convocando os fiéis para a guerra. Motivo: a Parada do Orgulho Gay de Maringá estava marcada para um dia após a Marcha para Jesus. Para o pastor, isso mostrava o verdadeiro propósito da parada (que ele não enunciou), por isso sua convocação, por meio de versículo bíblico, para a guerra. Não, não chamem o exército, pelo menos não ainda! O pastor deixou claro que a luta é espiritual, que a guerra não é contra os homossexuais, mas contra tudo que está por trás desse movimento (que ele também não enunciou o cargas d’água é isso que está por trás das ONGs LGBTs…).

Eu, que já fui evangélico, tenho minhas suspeitas do que esse pastor acha que está por trás do movimento gay… Mas é achismo. Não vou colocar palavras na boca de ninguém.

Uma postura bem parecida foi a do deputado pastor, discursando no 9º plenário no Seminário Nacional LGBT. “Ser evangélico é respeitar e promover a tolerância(…) o evangélico não concorda com a prática homossexual, mas isso não significa homofobia.” É o mantra “amamos o pecador, odiamos o pecado”.

Eu realmente gostaria que a maioria dos evangélicos não fosse homofóbica. E não, não estou dizendo que os evangélicos sentam o braço em cima dos homossexuais. Homofobia não é apenas violência, minha gente, quando esse povo vai entender? Homofobia é aversão a alguém por esse alguém ser homossexual, ponto. É um sentimento. É um sentimento que, num primeiro momento, pode até não gerar violência. Mas sentimentos são compartilhados, crescem, ganham significado social. A homofobia, mesmo a não violenta, pode fazer com que os próprios odiados, além de lidarem com o ódio dos outros, odeiem o que são a ponto de beirarem o suicídio (eu já cogitei essa possibilidade, quando evangélico e homossexual enrustido, por odiar o homossexual em mim). Não é à toa que pais expulsam adolescentes homossexuais de casa, ou os constrangem a tratamentos, ou mesmo forçam esses tratamentos. Não é à toa que as pessoas desrespeitam, xingam, fazem piadinhas, espancam e matam homossexuais. Cada vez que um cristão diz que a homossexualidade é pecado, é depravação, sei lá o quê, está aumentando a coragem daqueles que querem quebrar a cara dos homossexuais e as chances de adolescentes gays desistirem de viver.

Se disserem, então, para “sentar o pau” e “descerem o porrete em cima”, mesmo que em sentido figurado… Deixa pra lá. Veja aí o vídeo desse rapaz que comeu o pão que o diabo amassou… por ser homossexual.

É possível um cristão não concordar com “a prática homossexual” (as aspas são porque a homossexualidade não exige prática, volto depois nessa questão) e não ser homofóbico? É difícil, mas não é impossível. Basta o cristão em questão não ficar desconfortável perante homossexuais e suas vidas (difícil, né?). Ou, caso fique desconfortável por alguma coisa na cabeça dele ficar bipando “Abominação! Abominação! Abominação!”, ele se controle e se lembre que,  como qualquer ser humano, o homossexual merece ser tratado com civilidade, cordialidade e respeito. Que o homossexual, enquanto cidadão, tem o direito de não ser cristão ou o ser de maneira diferente. Que a noção do cristão sobre pecado serve apenas para ele, são coisas que ele, o cristão, não se permite fazer. Que desde que respeitem os direitos alheios, as pessoas de outros credos têm que ter total liberdade de seguirem suas próprias regras, de definirem o que é pecado e o que não é, ou mesmo se pecado existe ou não.

O grande problema de quando os cristãos ganham poder político é que eles querem impor para todo o país suas noções de certo e errado. Na boa: a bancada evangélica não está preparada para legislar. Estou sendo radical? Sim, estou descendo à raiz da Constituição Brasileira, que diz que o Estado é laico. E não, a Constituição proibir a associação entre Estado e igrejas não é só por ser bonitinho. Grande sofrimento já veio da mistura de religião e Estado, no mundo todo. E a lógica dessa questão é bem, bem simples: se nenhum brasileiro é obrigado a seguir a religião “x” ou “y”, então as leis brasileiras não podem ser pautadas ou defendidas por nenhum motivo religioso, nenhumzinho. A verdadeira civilidade exigiria que os parlamentares da bancada evangélica (e da bancada católica também) se lembrassem que legislam não só para seus companheiros de credo: legislam pra gente de credos diferentes também. E cada vez que debatem seu trabalho a partir de doutrinas de suas igrejas, eles estão violentando a liberdade religiosa dos brasileiros que não compartilham dessas crenças.

Legislando contra o casamento gay e contra as leis anti-homofobia, os evangélicos também estão desrespeitando evangélicos. Há igrejas inclusivas, que legalmente são tão igrejas quanto as outras, mas que defendem também os direitos homossexuais. Elas não têm o direito de casar seus fiéis? Que liberdade religiosa é essa?


“Querem depravar o casamento!”, dizem. Nenhuma igreja paga pelo uso da palavra “casamento” como marca registrada de um ritual, várias religiões, no mundo todo, usam essa palavra. Cada igreja, cada religião, faz o seu próprio ritual de casamento, ora bolas! “Querem acabar com a família, querem perverter as crianças”. Na verdade, esse parece ser o grande medo dos cristãos em relação aos homossexuais: a perversão das crianças.

O pastor desse link aí de cima falha em perceber algumas coisas. Meninas e meninos têm igual direito a chorar, jogar bola, empurrarem caminhãozinho e carrinho de boneca, porque quando adultos deverão ter o mesmo direito a assumirem que precisam de ajuda, a buscarem condicionamento físico, a tirar carteira de motorista na habilitação que quiserem e a serem bons pais e boas mães. Não dar essas liberdades às crianças  não tem a ver com “prevenir” homossexualidade. Tem a ver com machismo mesmo.

Francamente? Sempre achei que quem começou esse medo de crianças “virarem gays” foram, na verdade, bissexuais que abafam todos os dias, sabe-se lá a que penas, a atração pelo mesmo sexo. Quem nunca sentiu atração pelo mesmo sexo, penso eu, não teria a menor preocupação com o filho “virar gay” por ver algo homossexual. Parece que tudo pode ser o estopim para esse desejo latente, desde ver dois homens se beijando à simples menção de que a homossexualidade é normal.

É por esse medo que dois um homem e uma mulher podem se abraçar na pracinha e dois homens não podem andar abraçados na rua sem temerem por sua segurança. É por esse medo que heteros podem se beijar em público e homossexuais não. É por esse medo que combatem o racismo nas escolas e deixam a homofobia não violenta (mas não necessariamente indolor) correr solta.

Olha só: já é mais que aceito pela ciência que filhos de casais homossexuais não têm mais chances de serem gays que os filhos de heterossexuais. Nada que você faça pode tornar seu filho homossexual ou heterossexual, porque isso não é uma escolha. Lembra do que falei lá em cima sobre homossexualidade não exigir prática? Pois é. No fim das contas, um homossexual só consegue fazer uma escolha sobre sua homossexualidade: de um lado, aceitar e viver seus desejos pelo mesmo sexo e ter direito a orgasmos de qualidade; do outro, passar a vida lutando contra o próprio tesão e, apesar de homossexual, não praticar a homossexualidade e renunciar o direito a uma vida sexual satisfatória.

Escolhazinha difícil, não?

Se homossexualidade fosse escolha, ninguém escolheria ser homossexual pra sofrer a vida toda, seja pelo preconceito da sociedade, seja pelo próprio preconceito interiorizado. Se homossexualidade fosse fruto da educação, 100% dos filhos de heterossexuais seriam heterossexuais, e não haveria gays no mundo.

Alguns líderes gays podem me chamar de determinista mas, pra mim, homossexualidade, se não for genética, é biológica. Esse videozinho aí em baixo resume bem a ópera.

Na boa: quando você pensa em “por que fulano é canhoto”, o que você pensa, hein? Por que cargas d’água você acha que pra você foi fácil escrever com a mão direita e seu coleguinha achou mais fácil escrever com a esquerda? Por que diabos ver seu coleguinha escrever com a mão esquerda não fez você não virar canhoto também?

Canhotos não querem dominar o mundo, gays também não. Canhotos querem que suas vidas sejam mais fáceis, e é apenas isso que homossexuais querem. Ter carteira para canhoto nas escolas é privilégio para os canhotos? Não! É a mais pura e simples necessidade. Liberar o casamento gay e a lei anti-homofobia são privilégios para os homossexuais? Não! É apenas reconhecer que nós, gays, temos o direito de amar e trocar carinho em público, como todos os heteros têm. É reconhecer que, da mesma forma que a lei dá direito a ser “membro da família” para a esposa ou esposo quando o outro morre, está doente, etc, nós, homossexuais, também temos o direito de sermos família de quem construiu uma relação de amor conosco.

Mas você, homossexual, bissexual, ou transsexual que está lendo esse texto já sabe dessa história de cor e salteado, não é? Maravilha, mas não basta você saber. Seus amigos e parentes heterossexuais têm que saber desse terço pelo menos a metade. Não foi à toa que Harvey Milk começou a política do “assuma-se já” (embora eu ache que todo mundo tem que assumir quando sentir que é a hora certa). Não é à toa que a senadora Marta Suplicy disse que o movimento LGBT necessita de apoio heterossexual. As pessoas nos temem e temem nossos direitos porque acreditam nas mentiras que contam a nosso respeito. Então amiguinho, então amiguinha, comece fazer sua parte. Deve ter um ou outro amigo, um ou outro parente que sabe que você é homossexual mas aceita isso “mais ou menos”. Chame ele, chame ela pra ler esse post. Ou esse aqui, da campanha do Casamento Igualitário. Ou tenha um conversa franca, explique. Mas tente alguma coisa, qualquer coisa, para explicar a verdade. Eles têm que perceber que somos um entre dez, que todos têm um parente ou um amigo homossexual. E que defender direitos LGBT é defender pessoas próximas, é defender, talvez, o direito dos próprios filhos e sobrinhos amanhã. É defender, inclusive, a liberdade religiosa.

Aliás, alguém lembra por que ontem foi o Dia Internacional contra a Homofobia? 17 de maio de 1990. Foi nessa data que a Organização Mundial de Saúde deixou de considerar a homossexualidade como uma doença.

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