E o prêmio de personagem mais bem sucedido do fantástico queer vai para…

Assim, antes de entregar o prêmio (que é apenas meu humilde voto, eheheheh), vale a pena explicar o que diabos esse “bem sucedido” significa.

Não, o ganhador não é rico. Nem absurdamente famoso. E não, ele não é feito de finais felizes. Mas se levarmos em conta a importância do moço numa narrativa fantástica, o quão profundamente exploram o lado queer da vida dele e o quão famosa é história da qual ele participa… Bem, ele ganha de longe.

Como o bom e velho Jason, vamos por partes.

Quesito fama: a história da qual o moço participa é conhecida mundialmente, embora não seja um blockbuster. “O Segredo de Brokeback Mountain”, com certeza, é uma história bem mais conhecida, mas não é uma história fantástica, então pra esse prêmio não conta. A história do moço, provavelmente, é famosa como “Gattaca”, ou como “O homem duplo”. Ou seja, é meio Cult, mas é conhecida em todos os continentes.

Quesito profundidade do lado queer: ele é totalmente desenvolvido, tanto quanto o oscarizado filme gay. Claro, o moço não vive seu lado queer 24 horas por dia, até porque ele também tem um lado heterossexual. E também, como já disse em posts anteriores, ninguém faz sexo 24 horas por dia (embora muitos tentem, e isso não tem a ver com orientação sexual).

Quesito importância na história: ele é O protagonista, o que é um grande mérito em histórias famosas assim. Temos, desde o começo do século, cada vez mais personagens queer nas histórias em geral, o que também inclui o gênero fantástico. No entanto, 90% desses personagens são coadjuvantes ou pior: figurantes. Claro, há honrosas exceções, como os personagens da… <<limpando a garganta pra falar bonito>>… Fantástica Literatura Queer!

Aliás, você viu que consegui emplacar mais um conto na coletânea? Volume Verde, em outubro… Pois é, suei…! E suo de novo, quantas vezes for preciso. Já tramando aqui um conto pra tentar entrar no Volume Azul ou no Roxo.)

Voltando ao prêmio de mais bem sucedido personagem do Fantástico Queer: já adivinhou quem é o felizardo? Dou-lhe uma… Dou-lhe duas… Dou-lhe três…

O grande ganhador é…

é…

é…

Capitão Jack Harkness!!!

E antes do discurso do ganhador, vai uma biografia resumida do rapaz.

Capitão Jack Harkness apareceu, primeiro, na matusalênica mas ainda pulsante série inglesa “Doctor Who”. Aparentemente, o carisma do moço foi tanto que tiveram que dar um seriado só pra ele: “Torchwood” (pra quem não percebeu, um anagrama de “Doctor Who”). Torchwood, no caso, é uma agência secreta criada pela rainha Vitória para investigar estranhos fenômenos associados ao misterioso doutor da primeira série. Com o tempo, mesmo não prendendo o doutor nem apreendendo sua real e complexíssima natureza, a agência obteve conhecimento e tecnologia respeitáveis sobre criaturas e fenômenos extraterrestres e extradimensionais. No século 21, o Capitão Jack Harkness começa o seriado chefiando essa agência. Ele é omnissexual, ou seja, pega qualquer criatura adulta inteligente que dê bola pra ele: homens, mulheres e alienígenas, desde que seja consensual. O passado dele é misterioso, sombrio até, com segredos do caralho, muito, muito punks.

Se a curiosidade for muita, marque o texto em branco para descobrir: [começo do spoiler]   ele é imortal, não morre nem se quiser. E é velho como o diabo. E veio do século 51. E era membro de uma agência de viajantes do tempo. E foi criminoso por muitos e muitos anos. E mesmo depois de mocinho, já fez muita coisa vergonhosa. E claro: o nome dele não é Jack Harkness. [fim do spoiler]

Em tempo: Jack Harkness não é o único personagem com experiências queer na série. Todos os membros da equipe original (moçoilas e rapazes) tiveram, em algum momento da série, uma experiência homo.

A primeira temporada de Torchwood tem vários altos e baixos. Os altos (muito altos), sempre relacionados a episódios com menos efeitos especiais e focados em desdobramentos humanos da ficção fantástica da série. E os baixos (horrivelmente baixos) sempre associados ao departamento de (d)efeitos especiais e falta de medo de pastelão. Nessa temporada, temos vários episódios em que o lado homo do Capitão Harkness aparece, primeiro com ligeiras dicas no começo da temporada, e de maneira mais assumida no final, a ponto de o moço ficar comprometido. Nada muito sexual, ainda. Mas romântico, com certeza.

A segunda temporada segue mais ou menos o mesmo ritmo: altos, baixos, drama de qualidade, pastelão idem. Além do namorado do moço, surge um ex-amante ainda apaixonado pelo Capitão Harkness, e as cenas com esse outro personagem são bem interessantes. Rola um ensainho de sexo, meio mixuruca quando comparado ao sexo real e ao sexo de heteros na TV. Mas dá pro gasto.


A terceira temporada de Torchwood é, para mim, a melhor em termos de narrativa. Orientaram direito o departamento de (d)efeitos especiais e aprenderam a lição de que sugestionar faz mais efeito que mostrar cagada. A trama também é mais densa, assustadora e sufocante até. E a relação amorosa do Capitão Harkness atinge sua maturidade. Abaixo, um trailer dessa temporada.

A quarta temporada é a segunda melhor, mas é aquela em que mostram, pela primeira vez, uma cena decente de sexo homo com o capitão. Não, nada pornográfico. Apenas usam insinuações de sexo e romance na medida certa, como um bom romance heterossexual. O enredo da temporada também é interessante, os efeitos especiais deram uma… leve degringolada, mas nada que atrapalhe a série. Rola também uma americanização da série, mas isso não atrapalha (muito) o andamento das coisas. Da metade para o final da temporada, as coisas ficam bem bacanas de novo.

Outro ponto interessantíssimo: Jonh Barrowman, o ator que interpreta Harkness, é homossexual assumido, canta, dança (sim, ele teve um pé na Broadway), já foi apresentador de programa infantil e parece manter um bocado dessa tônica em seus shows. Esses, pelo que comentam na internet, divertem fãs de todas as idades. A primeira metade do vídeo abaixo dá bem claro o tom disso.

Até aí tudo bem. Mas eu fiquei realmente de cara que, nesses shows, ele fale abertamente sobre seu marido e o público, com papais, mamães e crianças, ache bonitinho. Principalmente com o selinho no final. Duvida? Assista o começo e o final desse vídeo aí em baixo.

Quem sabe o Brasil não chega um dia nesse ponto?

Se interessou em ver Torchwood? No Brasil, a série passava no canal Globosat HD e também está disponível para venda em DVDs, no NETFLIX (1ª e 2ª Temporadas) além de outros meios. Segue, abaixo, um guia para as duas primeiras temporadas, com importância do episódio para a construção da série, medidor queer, nível de pastelonice e qualidade do roteiro. Pra que tantos dados? Pra você decidir se vale ou não a pena assistir esse ou aquele episódio. Aviso aos navegantes: meu guia não é nenhuma bíblia sobre Torchwood. Fiz as classificações a partir de lembranças, e isso já impreciso o bastante. As duas últimas temporadas, independente da minha memória, você pode assistir sem medo: diversão garantida.

1ª Temporada

 

Título

Importância

Queer

Pastelonice

Roteiro

1

Everything Changes

10

1 ♂♂

3

7

2

Day One

0

5 ♀♀

3

7

3

The Ghost Machine

0

0

0

7

4

Cyberwoman

3

0

7

6

5

Small Worlds

2

0

1

7

6

Countrycide

0

1 ♂♂

0

8

7

Greeks Bearing Gifts

0

8 ♀♀

7

8

8

They Keep Killing Suzie

5

0

6

7

9

Random Shoes

0

0

0

10

10

Out of Time

0

0

0

10

11

Combat

0

0

1

7

12

Captain Jack Harkness

3

9 ♂♂

2

10

13

End of Days

5

6 ♂♂

10

5

2ª Temporada

Título

Importância

Queer

Pastelonice

Roteiro

1

Kiss Kiss Bang Bang

5

8 ♂♂

3

8

2

Sleeper

0

0

5

7

3

To The Last Man

0

0

3

8

4

Meat

0

1 ♂♂

4

7

5

Adam

7

0

3

6

6

Reset

4

0

5

5

7

Dead Man Walking

5

0

3

7

8

Day in the Death

5

0

1

9

9

Something Borrowed

3

6

10

5

10

From Out of the Rain

0

0

4

5

11

Adrift

0

8 ♂♂

4

8

12

Fragments

5

5

4

7

13

Exit Wounds

8

5

4

7

A 5ª Temporada é incerta. Eu cá fico na torcida pra que ela venha. ^_^

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