Game of Thrones: pitadas de fantástico queer

Pouco após a HBO começar a transmitir Game of Thrones, a Veja aproveitou para polemizar e publicou a matéria: “Dez razões pelas quais ‘A Guerra dos Tronos’ é (muito) melhor do que ‘O Senhor dos Anéis’ ”. Alguém chuta qual é o motivo número 1? “Os personagens transam, escarram, defecam e ficam de ressaca”.

Não é só uma questão de vender sexo. Os livros trazem, na matéria da Veja, um realismo levado “às últimas conseqüências”. Ora, na vida real, além de sexo, muco, fezes e ressaca dos infernos, há também seres humanos que teimam em não seguir os padrões heterossexuais. Então, nada mais natural que os livros tenham personagens queer também, correto?

Mais ou menos certo. Os livros têm uma ou duas referências a personagens que poderíamos classificar como queer. Uma das sete faces de uma das principais divindades cultuadas no livro é chamada de “O Estranho”, que seria a morte e o desconhecido, uma exceção a tudo. No segundo livro, uma das protagonistas, em seus pensamentos, descreve o rosto dessa divindade como uma sombra com “estrelas no lugar de olhos”. Acontece que essa face, por mais impessoal que seja, traz uma pitada de androginia, não é “nem homem nem mulher, mas ambos”. Ou seja: trans.

Há também o eunuco da corte, descrito com falas e gestos de moça. Há dois rapazes que são mui amigos, mas é só. Os livros pouco apresentam de explícito ou factual sobre práticas não heterossexuais. Afinal, aparentemente, homossexualidade é proibida pela religião dominante na história. O que quer que aconteça de queer, acontece longe das vistas da maioria dos cidadãos da história e, portanto, fora das vistas do leitor, já que a história é conduzida pelo ponto de vista de alguns personagens.

A série originada a partir dos livros é bem mais explícita. A HBO, que também produz a super queer “True Blood”, escolheu (provavelmente porque chocar a audiência com cenas homo, nudez e violência seja mercadologicamente interessante) explorar mais as possibilidades queer da história. Não, o seriado não é lotado de cenas gays. Como em “True Blood”, homossexuais são parte de um contexto maior, um detalhe na vida de algumas pessoas, às vezes com mais, às vezes com menos importância. Como na vida real. Nem todo mundo é gay, e quem é gay, apesar de ser gay 24 horas por dia, não pensa nisso 24 horas por dia.

Ok, referência número 1 a gays no seriado: prostitutas. É novidade pra alguém que homens heterossexuais adoram ver sexo lésbico? (episódio 107) Pois é: no mais requintado bordel da corte de Game of Thrones, acontecem apresentações desse tipo de sexo. Uma referência metalinguística ao que o seriado apresenta. Tanto que a cena assistida pelo público não é a apresentação em si: é o ensaio. É o cafetão instruindo as meretrizes sobre como devem se portar para que o espetáculo seja perfeito, para que mexa com o imaginário dos tolos homens. E então, enquanto o público se deleita com o sexo lésbico, talvez,  talvez ele perceba uma outra camada na cena: as reações das prostitutas ao discurso do cafetão. Sozinhas, talvez elas não fizessem nada daquilo. A princípio, antes da intervenção do dono do bordel, elas são teatrais em excesso, vulgares, pornográficas, rápidas, vazias. Por quê? Porque é isso que elas acham que os clientes anseiam, porque é assim que estão acostumadas a fazerem sexo com homens. O que ele pede é suavidade, lentidão, menos erotismo e mais sensualidade. Os homens sabem que elas são prostitutas, sabem que elas fingem e, segundo o dono do bordel, é preciso tempo para que esqueçam. O que ele exige é que, mesmo que estejam fazendo sexo com uma mulher, elas ajam como se o pau do cliente fosse muito especial, como se as atingisse em lugares que nenhum outro atingiu. Um balé confuso entre ensaio e
sentimento, entre técnica e autenticidade, entre a ilusão (de que o homem é indispensável mesmo no sexo entre mulheres) e a realidade (de que o sexo entre mulheres é bem mais cheio de nuances). Tanto que uma das moças tem um orgasmo real, passando a nítida sensação de estar apaixonada pela colega. A outra, a “ativa”, não parece tão embevecida. É a encarnação da técnica, que só quer o trapo passes limpar os dedos sujos de fluído vaginal e fezes. Como boa aluna, ela chega a perguntar se o patrão não quer juntar-se às duas, como sabe que é fantasia secreta de todos os homens. Ele não se deixa enganar. Sabe do eterno dilema entre o autêntico e o comercial em todas as formas de arte.

Há outras ocasiões em que mulheres fazem sexo com mulheres para entretenimento masculino. Nenhuma em que há amor. Fico curioso para saber, se em algum momento, a série explorará isso. De qualquer forma, a série explora a vida de mulheres que fogem do papel de donzela e os preconceitos que enfrentam por causa disso. Mesmo que, aparentemente, se trate de mulheres heterossexuais, não deixa de ser algo que foge ao modelo tradicional de heterossexualidade machista. Uma mulher grande, forte e que recusa o título de “lady” não deixa de causar estranhamento. Não deixa de ser queer.

Ok, referência número 2 a gays no seriado: um príncipe, que no futuro acaba se tornando rei. O príncipe namora um cavaleiro em segredo (ou sem tanto segredo assim). Ambos são famosos na corte por sua beleza e simpatia e mexem com a imaginação das damas. Entre quatro paredes, o pequeno dilema da vaidade da moderna tribo das barbies. Enquanto um depila o peito do amante, esse questiona se o outro não preferiria um rapaz mais jovem, sem pêlos. “Eu quero você”, a resposta vem rápida. Logo o dilema dos pêlos cede espaço para o dilema da sucessão. Por mais que o príncipe não tenha vivido batalhas e, por isso, tenha a masculinidade questionada, o povo o ama. O trono é feito de atos heróicos ou de carisma? Que tipo de trono dura mais?

A sexualidade deste príncipe só ressurge bem depois, quando ele já é chamado de rei e está casado com a irmã de seu amante. Ele já tem protelado a noite de núpcias por tempo o bastante, e seu amante, aproveitando-se de uma pequena desavença entre os dois, abandona o leito real para que o rei busque herdeiros. A tensão, agora, é o quanto o segredo do rei pode pôr tudo a perder. E o diálogo que se segue com a rainha é simplesmente impagável.

Para ver fotos desse príncipe e seu amante, clique aqui. E para ler o parágrafo a seguir, selecione o texto entre os marcadores de spoiler.

[Começo do spoiler] O príncipe Renly, infelizmente, não dura muito. Infelizmente, o espectador pode ficar com a impressão de que Renly cair no clichê dos personagens gays que morrem cedo. Entretanto, ele não durava nem nos livros, antes de ter uma dimensão queer. Sua morte tem a ver com a disputa ao trono, não com sua sexualidade. E seu amante, Ser Loras, ainda sobrevive, enlutado como genuíno viúvo, inundado pelo desejo de vingança. Resta saber, a partir dessa segunda-feira, se a sexualidade dele ainda terá destaque na história. E se outros personagens queer surgirão. [Fim do spoiler]

Game of Thrones é apresentado nos EUA e no Brasil pela HBO.

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