E viva o Livanet!

Esta é uma história “semi-ficcional”. Ela teve umas partes adaptadas pra fazerem sentido com menos detalhes, outras ficaram mais engraçadas e definitivamente a exatidão dos diálogos não foi minha prioridade. ^_^

Comecei a “mestrar” RPG por volta dos 14 anos (Storyteller, principalmente). Por volta dos 23 encontrei outros narradores que me permitiram mais jogar que mestrar. Gurps e D&D, principalmente, mas estava de bom tamanho. Foi quando me dei conta de um fenômeno estranho: meus personagens não tinham vida sexual.
Eram sempre puros, castos e, principalmente, sozinhos. Não por falta de tentativas do mestre em bancar o cupido.

— Aquela ninfa de corpo escultural e sorriso estonteante está sorrindo mais que o normal para o Livanet. O que ele faz? – disparou o narrador da vez.

— Ele dá bom dia à ninfa ninfomaníaca e segue seu caminho. – eu respondi com minha melhor cara de paisagem.

Livanet foi meu primeiro personagem de D&D. Era um clérigo meio-orc-meio-elfo (sim, eles existem!), de beleza… como eu diria? Entre inexistente, negativa e exótica.

— Como assim?! – o narrador arregalou o olhão, surpreso.

Ele ainda não me conhecia tão bem. Mas já que essa era a terceira vez que Livanet recusava flerte, decidi não dar mais desculpas esfarrapadas.

— O Livanet é gay.

— Hein?!

— Ele é gay.

— Desde quando?!

— Desde que eu criei ele pra o jogo, oras.

— Você vai jogar com personagem gay?!

— Vou, ué. Não pode?

— Er… pode.

Silêncio. O narrador coçou a cabeça, criou coragem e finalmente perguntou:

— Por que você escolheu jogar com personagem gay?

— Porque eu também sou gay.

Surpresas, alegações de que não pareço gay, que estava brincando, etc. Os outros jogadores já me conheciam há mais tempo que o mestre, então me ajudaram a convencer o mestre. Tudo pareceu bem resolvido, então passamos um ano e meio jogando.

Os outros jogadores flertaram, namoraram, transaram e até casaram (ou quase, e não necessariamente nessa ordem). Livanet ficou no canto dele, sendo o bom clérigo que era e, para minha infelicidade, celibatário. E por mais que procurasse, não encontrou, em nenhuma das aventuras em que eu o controlei, outro personagem homossexual.

É fácil entender que o narrador se sentia… desconfortável em representar um NPC gay. Aliás, segundo ele mesmo disse anos depois, conviver comigo, o primeiro amigo gay dele, já o forçou a rever um monte de conceitos, então vamos com calma com o moço que ele se esforçou de verdade. Por um bom tempo, ele nem concebia que existisse um personagem gay não caricato em uma história de fantasia medieval. E não, isso não foi culpa dele. Com a educação que recebemos, qualquer brasileiro pensa, durante boa parcela da vida, que gays não são bom material para heróis. Nesse imaginário popular, gays não são nem fortes, nem sérios, nem honrados, nem inteligentes, nem persistentes, nem corajosos, nem viris o suficiente para atos de bravura. Resumindo: o mundo estaria perdido se precisasse ser salvo por um gay.

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O herói gay no imaginário popular: mais preocupado com ser fashion que com salvar o dia.

(Sim, o mundo é machista e sim, pelos mesmos motivos que as pessoas têm dificuldade em conceber heróis gays, elas, no fundo no fundo, acham difícil acreditar que  mulheres realmente salvem o dia. Sim, machismo e homofobia são farinha do mesmo saco e fumar faz mal à saúde de verdade.)

Voltando a esse imaginário popular: quais as chances de todo mundo se ferrar porque um homossexual carrega a responsabilidade de ser herói? Zero, ou bem perto disso. Além de supor que gays não se metem em atos heróicos, esse imaginário diz que gays são raros, bem raros, um em mil, ou talvez um em um milhão. Talvez, na maior parte do tempo, as pessoas finjam que não existimos, ou que, se existirmos, nunca seremos importantes o bastante. E que já que “decidimos” fugir da ordem heterossexual das coisas, renunciamos, automaticamente, ao direito de atos extra-ordinários.

Não somos tão raros: somos um em cada dez, mesmo que não usemos crachá. E estamos em todos os segmentos da sociedade. Existem boxeadores gays, jogadores de futebol gays, policiais gays, bandidos gays e (oh, meu deus, existe pastor gay também!), certamente, também existem heróis gays. Não somos nem mais nem menos extraordinários que os heterossexuais. Somos diferentes, é claro, mas as diferenças não precisam ser temidas nem detestadas. Sabendo lidar com elas, as diferenças podem ser celebradas.

Parece que finalmente, de uns anos pra cá, a ficção fantástica começou a colocar gays na equação. Afinal, se um a cada dez humanos é homossexual, pra coisa ficar verossímil, um a cada dez heróis, um a cada dez vilões e um a cada dez coadjuvantes deveria ser homossexual. Aos poucos eles pipocam nos seriados, livros e revistas em quadrinhos. E não só como enfeites: suas diferenças têm ganhado peso, relevância e coerência dentro da história.

Um belo dia Livanet e seus amigos passeavam pelo campo quando ouviram, ao longe, gritos desesperados de mulheres. Acorrentadas, elas eram açoitadas por um grande demônio, cujo chicote mágico parecia aprisionar as pobres donzelas numa potente amálgama de prazer e dor.

A batalha contra o demônio foi feroz e o grupo quase esgotou suas energias mágicas. Finalmente o demônio caiu, e os heróis ocuparam-se em libertar as donzelas.

— Três das mulheres estão abraçadas às pernas do anão guerreiro, agradecendo. – anuncia o narrador. – Uma outra está sentada no chão, chorando, e há uma outra atrás de uma grande pedra, ainda amarrada, longe do grupo.

— Eu vou consolar a garota que está sentada no chão, chorando. – respondeu uma das jogadoras.

— Eu vou dizer: “Calma, tem pra todas”. – emenda o jogador que controla o anão.

— Eu vou libertar a garota que está longe do grupo. – falei.

O mestre deu um sorrisinho de vitória e disse:

— Assim que Livanet solta a mulher, as correntes, que são mágicas, o prendem contra a pedra e ela lasca um beijo na boca dele. Os olhos dela brilham vermelhos, e chifres demoníacos crescem entre os cabelos dela. Ela é uma sucubus. São todas sucubus.

— Vou cortar as cabeças das que estão abraçadas às minhas pernas – resolveu o jogador do anão.

— Seu personagem não sabe que elas são sucubus. Na verdade, elas estão quase beijando ele. – contestou o mestre.

— Faz o Livanet gritar aí pra avisar a gente, Osíris. – pediu a jogadora.

— Ele não pode gritar beijando. – o mestre comemorou.

— Que magias você ainda tem, Osíris? – perguntou o personagem do anão suando frio.

— Só palavra sagrada. Destrói todas as criaturas malignas três níveis abaixo do meu se ouvirem a palavra.

— Qual o nível delas?! – o grupo todo perguntou quase ao mesmo tempo.

— Quatro abaixo do de vocês. – o mestre respondeu amuado – Mas ela está beijando o Livanet. Ele tem que fazer três testes de força de vontade, e tirar o resultado máximo nos dados nas três vezes pra não virar escravo sexual dela.

— Que apelação! – protestou o jogador do anão.

— O Livanet é gay. – balbuciei com um sorriso.

Quando a sucubus percebeu a falta de empolgação do meio-orc-elfo, arregalou os olhos e perguntou, surpresa:

— Quem é você?!

Talvez, no fundo, essa fosse a pergunta do mestre. Mas ele também comemorou quando, graças a um clérigo homossexual, todas as sucubus viraram fumaça.

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